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Capital Federal


Três damas da alta sociedade brasiliense 


Por Thales Sabino, de Brasília | Colaborou Gabriela Rocha | Fotos Vitor Shalom

Go Where reuniu Yara Curi, Maria Cristina Arnez e Stella Guerra, três figuras com passe livre na corte da capital da República, para saber o que mais há de especial na cidade, além do traçado moderno de Niemeyer e do céu com azul único que enchem seus moradores de orgulho. As três foram unânimes na resposta: sua gente. A conclusão, na verdade, foi o ponto de partida da conversa no charmoso Café Antiquário, no Pontão do Lago Sul, onde as três degustaram escondidinho de camarão recriado pelo chef Eduardo Nogueira para o restaurante de Fernando Cabral

Maria Cristina Arnez

Dona das franquias da Artefacto e da Osklen em Brasília, ela é economista formada pela UnB, casada com o dono de uma das mais importantes construtoras do Distrito Federal e mãe de dois filhos. Goiana de Anápolis, filha de um pioneiro que coordenou uma das empresas que levantou as paredes da cidade, chegou ao DF com dois anos de idade. Aos 17, montou uma loja de roupas e nunca mais deixou de trabalhar. Vive no trajeto Rio-Brasília-São Paulo

Como você resumiria sua vida em Brasília em apenas uma resposta?

Moro em Brasília há 45 anos e tenho grande amor pela cidade. É uma cidade que me proporciona muitas alegrias. Não a trocaria por nenhum lugar. Sou muito feliz e bem-sucedida aqui. Trabalho com moda há 32 anos.

Que recordações você tem da infância em meio a uma cidade em construção?

Lembro de visitar algumas obras com meu pai. E da Esplanada dos Ministérios. Aquilo tudo era muito grande e eu era muito pequena. Recordo da inauguração de Brasília. Eu era pequeninha, mas me lembro daquele povo todo na Esplanada, tomado pela emoção.

A cidade cresceu e mudou muito desde sua adolescência?

Era uma época de tranqüilidade e liberdade, quando todo mundo se conhecia. Era tudo uma grande família. Brasília não tinha shopping center e a gente viajava para trazer as tendências de moda.

O que é o melhor de Brasília?

A qualidade de vida. A segurança, o trânsito, o clima, essa coisa de ver o céu. Eu, que vivo muito em ponte-aérea para São Paulo e para o Rio, voltar para a cidade é como lavar a alma. É abrir o pulmão.

A cidade é nova, mas já tradicional. Como existe tradição em um lugar tão jovem?

Hoje estamos na terceira geração da cidade. Já existe toda uma história. Meus pais participaram de um grupo, eu fui de outra turma, meus filhos passam por outra. Então cada grupo vai criando uma identidade e uma referência na cidade.

Como alguém entra ou sai da corte?

Brasília é muito democrática. As pessoas só deixam de fazer parte da sociedade quando se vão ou por opção. Eu não vejo as pessoas serem excluídas. Em São Paulo, por exemplo, é mais difícil porque a cidade tem uma linhagem. Como Brasília é uma cidade política, isso ajuda. As pessoas são sempre muito bem-vindas. Estamos sempre recebendo e nos despedindo de pessoas. Eu particularmente vejo que Brasília é uma cidade de idas e vindas. 

Stella Guerra

A gaúcha criada no Paraná se mudou para Brasília para acompanhar o marido, deputado federal nos anos 90. Nesses quase 20 anos muita coisa mudou. Sua joalheria se tornou uma das mais badaladas da capital, com um espaço exclusivo da Baccarat com peças de Philippe Starck, e o marido deixou a política depois de dois mandatos. Quando chegou ao DF, Stella chegou a "chorar de desespero" e quis ir embora no dia seguinte. Ao fim do segundo mandato do marido, foi ela quem bateu o pé e decidiu que a família ficaria no Planalto Central.

Como você resumiria sua vida em Brasília em apenas uma resposta?

Nasci no Rio Grande do Sul, mas me mudei para o Paraná aos seis anos, onde estudei e me casei aos 19 anos. Na época, meus pais eram contra eu trabalhar, mas insisti. Comecei vendendo algumas jóias e depois abri uma joalheria em Pato Branco, com uma irmã. Fomos pioneiras em implantar o atendimento em mesas individuais, como é hoje. Vim morar em Brasília em 1990, quando meu marido foi eleito deputado. Abri minha joalheria, me adaptei e desde então não troco a cidade por nenhum outro lugar.

Você chegou bem na transição de Sarney para Collor. Que lembranças você tem?

Nos anos 90, conheci uma Brasília cheia de deslumbramentos por causa da abertura das exportações. Mas tenho saudade dessa época. Não se queria falar em miséria, havia um glamour no ar. Lembro que eu ficava dirigindo pela cidade para aprender a andar aqui. Mas Brasília foi melhorando nesses 18 anos, em tudo, como na gastronomia.

Você se sentiu bem acolhida ou Brasília é uma cidade fria?

No começo, chorava de desespero querendo ir embora, até que comecei a trabalhar novamente e me acostumei. Meus filhos vieram pequenos e se adaptaram. Depois fui eu quem bateu o pé para ficar quando meu marido saiu da política e pensou em ir embora.

Para você, o que é o melhor de Brasília?

O melhor é o povo daqui, que acolhe gente de todo o mundo. O brasileiro já é assim, mas acho que a gente daqui é acolhedora, gentil. Como muitos não têm família aqui, acabam criando laços com amigos.

Como alguém entra ou sai da corte?

Acho triste quando a pessoa entra e sai de cena aqui. Alguns entram, dão um close e saem sem serem notados. Mas quem deixa sua marca, quando sai, não é esquecido. E para deixar marca, é preciso ter o que falar ou fazer uma barbaridade. Eu prefiro sempre quem deixa a marca porque tem o que falar.

Yara Curi  

A advogada mineira que chegou em Brasília na época da transferência da capital do Rio de Janeiro para o Planalto Central é figura hors concours da alta sociedade brasiliense. Casada há mais de 40 anos com o fundador de uma rede com mais de 50 lojas no ramo de assistência técnica automotiva e concessionárias, com quem teve três filhos, é forte defensora da capital. Além da fama de 'tradicional', é classificada pelas amigas como uma das figuras mais sinceras da corte.

Brasília faz 48 anos, mas a ousadia de Juscelino Kubitschek em levar a capital para o Planalto ainda impressiona.

Falar de Brasília sem falar de JK é impossível. Eu acompanho a cidade desde o Palácio do Catete. Ele foi a maior personalidade do século 20 no Brasil. Tenho um orgulho muito grande de ter vivido na época de JK, grande político, administrador, homem gentil e delicado.

Você construiu boa parte de sua vida em Brasília. Dá para se sentir daqui?

Me sinto brasiliense. Não saio daqui por nada. Sempre gostei de apresentar Brasília e não gosto quando as pessoas colocam defeitos na cidade. Eu sempre digo: não mostro Brasília para pessoas pouco inteligentes. Conheci pessoas que vieram para cá transferidas dizer que estavam doidas para se aposentar e ir embora. E aconteceu ao contrário. Muitos desses aposentados continuam morando aqui. Brasília tem um visgo.

O que você acha da má fama que os brasilienses levam por conta dos escândalos?

O povo brasiliense não liga para política. Eu não gosto de política. Platão disse que a política é a arte de enganar. E não gosto disso. Sou uma pessoa franca, digo as coisas que sinto e é assim que vivo.


Comparando com outras cidades, as pessoas da alta sociedade daqui chamam mais atenção?

Brasília nasceu vítima de inveja, pois roubou do Rio o Distrito Federal. Hoje a sociedade de Brasília é uma das mais bonitas do Brasil. As mulheres são chiques, os homens são instruídos e competentes. Todo mundo estuda em Brasília. É uma cidade de estudantes, todos vão para a faculdade e se formam.

Para você, o que é o melhor de Brasília?

É uma cidade limpa, não temos indústrias. Todos vieram para descobrir algo. O povo aqui é muito especial, a cidade também. Você não chega estressado em casa como no Rio e em São Paulo.

Como se entra na corte brasiliense?

Temos duas sociedades. Uma tem raízes aqui, outra á passante: que ministros, deputados e senadores que não têm raízes na cidade. Na minha casa não recebo políticos. Nossa sociedade não tem nada a ver com os políticos. As pessoas que freqüentam a minha casa são os que têm raízes.

 
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