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Clássicos em Sampa


Quanto custa - prestígio e em dinheiro - trazer ao Brasil grandes orquestras e solistas internacionais


Por Celso Arnaldo Araujo

Pode-se imaginar a loucura que é trazer um U2 para o Brasil - incluindo as toalhas brancas que todo astro de rock pede no camarim... Mas nem os habituées da requintada cena erudita de São Paulo conhecem as engrenagens que movem o universo dos superastros da música clássica. Contratar para a cidade uma orquestra internacional com 150 músicos ou um solista pertencente ao olimpo das estrelas da música erudita pode ser tão difícil quanto fechar com a Madonna - pois eles são disputados pelas salas de concerto de todo o mundo. As prima donna dos concertos podem ser caprichosas e quase impossíveis. Por isso, os empresários encarregados de contratar essas estrelas para o Brasil têm um perfil todo especial - cultos, poliglotas e eles mesmos amantes da música erudita, têm livre trânsito nesse fechado e seleto clube, onde concertos são marcados com até três anos de antecedência. Nesta matéria, Sabine Lovatelli e Gérald Perret - representando respectivamente o Mozarteum Brasileiro e a Sociedade de Cultura Artística - revelam os bastidores das operações que permitem ao paulistano curtir de camarote a divina música dos deuses da música clássica

Você tem a incumbência de contratar, para um concerto no Brasil, um astro absoluto do piano clássico - o italiano Maurizio Pollini, por exemplo. O que você faz? Claro, arruma o telefone do atual empresário do artista e arrisca um primeiro contato. Esse seria o caminho lógico - mas só para um iniciante. Diz a condessa Sabine Lovatelli, fundadora e presidente do Mozarteum Brasileiro: "Não gosto de negociar com os agentes. Vou pessoalmente conversar com o artista". Ela pode. Sabine tem acesso aos camarins da maior parte das superestrelas eruditas. Nascida na Alemanha e casada com um conde italiano, o empresário Carlo Lovatelli, que veio trabalhar em São Paulo, em 1981 ela fundou aqui a organização que seria fundamental para a reinserção do Brasil no circuito internacional das grandes orquestras, já que o País praticamente ficara isolado do mundo erudito por quase 20 anos. A sede inicial do Mozarteum era na garagem de seu advogado. Mas os primeiros concertos promovidos por ela, com estrelas que nunca tinham vindo ao Brasil, fizeram tal sucesso que o Mozarteum consolidou-se. Em 27 anos de atuação, trouxe ao Brasil nada menos do que 588 atrações internacionais - entre elas, duas das cinco maiores orquestras do mundo, as filarmônicas de Berlim e Viena, companhias de dança como o Bolshoi, além de uma centena de renomados solistas, grupos de câmara, coros e regentes legendários. Tudo negociado pessoalmente por Sabine, que vai à Europa pelo menos quatro vezes ao ano, atrás de conjuntos sifônicos e intérpretes de primeira. Ela freqüenta, por exemplo, o célebre festival de Salzburg, uma espécie de Woodstock anual da música erudita. Para contratar as grandes estrelas, Sabine usa todo o seu prestígio de primeira-dama dos concertos no Brasil - mas, no fundo, a fórmula de sucesso é banal: "A coisa dá certo quando nós queremos e eles querem". Claro, nem sempre as vontades coincidem.

TRÊS PIANOS A CAMINHO

O citado Pollini é um de seus sonhos de consumo nunca realizados. Sabine chegou a jantar com ele em Londres. "Foi muito simpático comigo". Simpático, mas relutante. Convencido pelo charme e pela elegância serena, mas entusiástica, de Sabine, por um momento ele disse sim, prometendo programar uma data brasileira em sua carregadíssima agenda. Mas sua única exigência de peso parecia inviável - vir ao Brasil com três pianos, um para ensaiar, outro para tocar, outro como reserva. Uma loucura: tente trazer um piano de 1 milhão de dólares da Europa para o Brasil e saberá o tamanho da loucura. Agora, multiplique isso por três. Na hora h, Maurizio convenceu-se de que seria um exagero e contentou-se em viajar com seu afinador. Na hora h2, não pôde confirmar. E nunca veio. Segundo Sabine, essa exigência aparentemente descabida não deve ser tomada como regra no mundo das celebridades eruditas. Seu amigo Zubin Mehta, o célebre maestro que consagrou a Filarmônica de Israel e vem ao Brasil em 2010, via Mozarteum, com a Orquestra Filarmônica de Munique, um dia lhe deu uma dica de como lidar com pedidos aparentemente bizarros: "Pergunte exatamente por que ele quer aquilo". Funciona. Mas há ocasiões em que não adianta brigar com as feras - se as quiser mesmo no Brasil. Quando Sabine conseguiu fechar com a Orquestra Filarmônica de Berlim, então sob a regência do italiano Claudio Abbado, seu grande amigo, deparou-se com uma exigência de super stars: os músicos só vinham ao Brasil de avião fretado. Um Jumbo inteiro só para eles. Na verdade, podiam pedir: é simplesmente a melhor orquestra do mundo. Mas, nesse caso,
o pedido era à revelia do próprio maestro - que só os rege até certo ponto. Depois de pensar seriamente em cancelar o evento, o que seria catastrófico, Sabine conseguiu que um dos patrocinadores mais entusiasmados do Mozarteum, o empresário José Ermírio de Moraes, bancasse o frete. E a Berlim veio - e deslumbrou. Abbado, grato a Sabine, chegou a abrir mão de seu cachê para compensar o capricho de seus músicos - mas Sabine não achou justo. E o pagou, integralmente.

SEGURO CONTRA CALOR

Outro empresário que há anos lida, com a maior classe, com as virtudes e os defeitos dos virtuoses é Gérald Perret, superintendente da quase centenária Sociedade de Cultura Artística, uma das mais sólidas entidades culturais da cidade. Nascido na Suíça, cientista político por formação, especializou-se tanto em América Latina que se casou com uma brasileira - filha do célebre Alberto Soares de Almeida, o musicólogo que nos anos 60 fora convidado para ser secretário-geral da Sociedade em momento de crise financeira. Em 1981, coube a Perret - assim como Sabine, um aficionado da música erudita - assumir a superintendência de uma sociedade mergulhada numa crise maior ainda, pouco a pouco superada com uma gestão altamente profissional. Já são 27 anos de profícua atuação em prol da melhor música. Em maio último, a Cultura Artística trouxe a São Paulo um evento de gala: a Staatskapelle Berlin, sob a regência de um dos monstros sagrados da regência do século 20, o argentino Daniel Barenboim, em três noites históricas. O caso Barenboim, mega estrela da cena erudita mundial, é uma exceção. Ele vem ao Brasil com relativa freqüência porque, segundo Perret, é um regente altamente diferenciado, que tem uma visão social e política do mundo muito acima da simplória divisão entre Primeiro e Terceiro Mundo. "E tem um carinho especial pelo Brasil". Já prometeu a Perret voltar em 2010. Mas essa também não é a regra. A maioria das estrelas internacionais não tem, nem poderia ter, vínculos afetivos, culturais e musicais com o País ou o continente. É uma questão de prioridades. Com convites do mundo inteiro, escolhem os concertos mais próximos - e com maior repercussão crítica. "Uns têm curiosidade de conhecer o Brasil. Outros não têm. Para alguns, um concerto aqui não acrescentaria nada ao currículo". Aí pode entrar o prestígio pessoal de Gérald Perret e Sabine Lovatelli, que há quase 30 anos demonstram a seriedade brasileira no trato com esses monstros da música erudita - trazendo orquestras inteiras ao Brasil, para devolvê-las a seus locais de origem sem nenhum arranhão, depois de concertos memoráveis. "Todos saem daqui com boa impressão nossa. A imagem do Brasil melhorou muito nos últimos anos", diz Perret, que também admite que os obstáculos burocráticos na operação de trazer uma orquestra inteira ao Brasil, com seus milionários instrumentos, diminuíram bastante, depois de muitos conflitos com a Receita Federal, apesar de algumas excentricidades. "Somos o único país do mundo que exige dos músicos estrangeiros um visto de trabalho onde todos devem declarar o nome dos pais".

ONDE ESTÃO OS BAILARINOS?

E evidentemente nem tudo soa com harmonia na operação de trazer os astros ao Brasil. Perret lembra-se de um episódio quase tragicômico na vinda do Ballet de Stuttgart ao Brasil. Depois de apresentações triunfais em São Paulo, os bailarinos foram divididos em vários ônibus para o traslado ao aeroporto, de onde iriam para o Rio. Um dos coletivos, porém, saiu sem o monitor da Sociedade - que faltou. E justamente esse ônibus se perdeu no caminho, numa época em que ainda não havia celular, e nunca chegou ao aeroporto de Guarulhos. Mais tarde, um já desesperado Perret soube que o motorista, à falta de guia, levou-os para Congonhas - e que os dançarinos decidiram embarcar ali mesmo, pagando a Ponte Aérea do próprio bolso. Mas até que isso se esclarecesse, até um BO foi feito, por suspeita de seqüestro... Quanto aos caprichos das estrelas, Perret só se lembra de um - e só se lembra porque é uma exceção. O pianista polonês Krystian Zimerman, talvez o maior de sua geração na atualidade, condicionou seu concerto no Brasil à vinda de seu piano particular. Só o seguro do instrumento já inviabilizaria a viagem. Mas Perret conseguiu ajeitar as coisas.
E então veio o repique: o seguro teria que incluir uma cláusula que garantia a temperatura constante do piano durante a viagem e sua estada no Brasil, nenhum grau a mais ou a menos. Zimerman também nunca veio. Mas, para Perret, pior do que os chiliques são os cancelamentos. E, nesse particular, ele coleciona uma grande comédia de erros. Faltando semanas para um recital em São Paulo, a grande mezzo-soprano italiana Cecilia Bartoli cancelou sua vinda por doença. Para substituí-la na data, já com centenas de assinaturas vendidas, Perret contratou a também famosa Marilyn Horne. Que igualmente cancelou a viagem, faltando poucos dias. A terceira opção foi Cherryl Studer. No dia do vôo da cantora ao Brasil, Perret, encafifado, ligou para a casa de Studer e foi informado de que ela tinha ido para o aeroporto. Não acreditou. Ligou para a KLM: Cherryl não constava na lista de passageiros. Nunca embarcou. Recital cancelado, dinheiro devolvido.

QUANTO VALE O SHOW?

Comparando-se os cachês, não há parâmetro entre os grandes astros da música erudita e os mega ídolos pop. Um solista de primeira não costuma receber mais do que 150 mil dólares por apresentação em nenhum lugar do mundo. Os custos de trazer uma orquestra completa também são mais operacionais do que artísticos. Sabine lamenta que empresários independentes, que não têm os canais adequados para fazer os contatos certos, eventualmente seduzam artistas por cachês superinflacionados - que só comprometem a imagem do país no circuito internacional. Há pouco, o tenor José Carreras apresentou-se em Curitiba por um cachê estratosférico de 300 mil dólares. Do programa inicial de 13 canções, só cantou seis - e pela metade. Cinqüenta mil dólares por cada meia música. "É um custo que não passa a imagem de um país sério", resume Sabine. E se o assunto é dinheiro, o negócio da música erudita, para os dois empresários, é indiscutivelmente movido a paixão, não a números no azul. Para Sabine e Gérald, amantes da música clássica desde a tenra juventude, conseguir trazer ao vivo para a aficionada platéia paulistana o som divino dessas grandes estrelas vale qualquer esforço - já que as operações, sempre deficitárias com o retorno de bilheteria, só são cobertas pelos patrocínios de empresas e mecenas. No caso de Sabine, seu trabalho incansável à frente do Mozarteum Brasileiro também foi a forma que encontrou de se integrar ao País. Essa integração pela música envolve projetos de repercussão internacional, o que inclusive também facilita a vinda de artistas comprometidos com essa faceta social. Além de promover concertos
extras gratuitos - quase dois milhões de espectadores até agora - o Mozarteum oferece master classes dos músicos visitantes para jovens estudantes, como os da Orquestra Sinfônica de Heliópolis, a maior favela de São Paulo.
E 22 bolsistas brasileiros já foram levados para estudo na Europa, em escolas parceiras do Mozarteum. Por essas e outras, Gérald Perret e Sabine Lovatelli merecem a exclamação que costuma irromper nas platéias de todo o mundo após o último acorde de um grande concerto:
_Bravo!

Quem ainda vem em 2008

MOZARTEUM

*Duo Frederica von Stade (mezzo-soprano) e Jake Heggie (piano) - 4 e 6 de agosto, Sala São Paulo
*Leif Ove Andsnes, piano - 29 e 30 de setembro, Sala São Paulo
*Tchaikovsky Symphony Orchestra Moscow - 19 de outubro no Parque do Ibirapuera, ao ar livre, gratuito; 20 e 21 de outubro, Sala São Paulo
ingressos@mozarteum.org.br

SOCIEDADE DE CULTURA ARTÍSTICA
*Quarteto Alban Berg - 2 e 3 de julho, Teatro Cultura Artística
*Filarmônica de Liège - 18 e 19 de agosto, Teatro Cultura Artística
*Hallé Orchestra - 2 e 3 de setembro, Sala São Paulo
*Kodo (percussão do Japão) - 11 e 12 de novembro, Teatro Cultura Artística
Informações: www.culturaartistica.com.br

 
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