 Entrevista
Thereza Collor, agora morando em São Paulo, luta por causas nobres, como a defesa do Rio São Francisco Por Celso Arnaldo Araujo | Fotos Sidney Tuma
Um dia, foi chamada de "musa do impeachment", companheira de todas as horas do marido Pedro, que com suas denúncias derrubou o irmão presidente. Viúva aos 30 anos, entregou-se a projetos culturais e ecológicos em Alagoas e revelou seu lado Indiana Jones - formada em História, passou a fazer viagens etnográficas pela Ásia e o norte da África, estreitando contatos com a cultura, a arte e os costumes locais. Daí resultou uma das maiores coleções do mundo de braceletes e colares tribais, cuidadosamente organizadas em seu apartamento de Higienópolis, onde mora com o segundo marido, o empresário Gustavo Halbreich. O casal é presença festejada nos principais eventos sociais da cidade. Mas, aos 44 anos, ainda linda e brejeira como a menina que se casou aos 17 anos com Pedro e a política, Thereza Pereira de Lyra Collor de Mello Halbreich nunca se afastou de suas raízes. Há mais de um ano, está mergulhada na maior de suas causas: a defesa do Rio São Francisco, contra a faraônica transposição de parte de suas águas, proposta pelo governo. Não se importa em ser chamada de "musa do Velho Chico", o lendário apelido do chamado "rio da integração nacional", desde que consiga evitar o projeto. Nesta entrevista, Thereza surpreende quem ainda a considera uma socialite que caiu na vida pública meio sem querer. Ao contrário, revela-se uma lúcida e articulada ativista na defesa do rio que continua passando em sua vida. Essa história da transposição é altamente técnica, mas, resumindo, a idéia é tirar água do Velho Chico e levar, através de dois imensos canais, para regiões áridas do nordeste, sobretudo no Ceará.
Por que o projeto não presta?
Comecei a entrar nessa causa como alagoana - já que o São Francisco desemboca no mar em Alagoas - quando vi a crescente deterioração do rio, com o volume de água baixando, os peixes acabando. Passei a questionar o projeto de transposição defendido pelo governo. Aqui em São Paulo, me aproximei de um pessoal da USP, que me pôs em contato com todo o grupo que estuda o São Francisco. Hoje tenho uma rede interligada de pessoas que me dão subsídios para eu entrar nessa causa com segurança de me contrapor ao governo.
O governo alega que vai levar água ao povo do semi-árido. Mas eu pergunto: por que essa água vai ser tão milagrosa no Ceará e não é onde o rio já passa? Por que onde o rio já passa não é um oásis, com exceção de Pernambuco? Por que onde o rio passa as cidades não são saneadas? Por que a 10 quilômetros por onde o rio passa o povo precisa de caminhão-pipa? Só isso já desmonta o projeto. E mais: como tirar água de um rio que está morrendo? Aliás, o voto do ministro Carlos Ayres de Brito, do Supremo Tribunal, diz isso numa imagem muito feliz...
Tenho o voto comigo. Ele diz que tirar água do São Francisco e levar para outro lugar é o mesmo que tirar sangue de um paciente de UTI. O governo alega que está revitalizando o rio. Ok: então revitalize e espere o efeito, antes de sangrar. Mas há argumento em cima de argumento. O projeto é inclusive inconstitucional, porque o São Francisco é um rio nacional, que passa em cinco estados. Qualquer mudança em seu curso tem de ser discutida no Congresso. O projeto não tramitou. Há 21 ações no STF. E o governo ganhou uma liminar para começar a obra. Tenho muito cuidado em falar tudo isso para não parecer uma coisa política. Por isso, estou me esforçando para a mídia se engajar nessa luta e levar a população a discutir o assunto, que é de interesse nacional, não político. Mas a verdade é que a intenção do projeto é levar água para o Ceará, deixando um pouquinho no Rio Grande do Norte, um pouquinho na Paraíba, onde o rio já passa. Em Pernambuco aproveitaram o rio muito bem e a região de Petrolina e Juazeiro já é um oásis - é o único lugar do mundo onde dá duas safras de uva por ano. O resto ninguém aproveita, porque sempre se alimentou a indústria da seca. A idéia de deixar um pouquinho em cada estado é porque ia ficar feio levar tudo para um só. Como cada estado de três senadores, com isso se garantem 15 senadores comprometidos com o projeto. O senador não pode ir contra para não se queimar politicamente.
E esses açudes que fizeram no nordeste a torto e a direito, não funcionam?
Essa é outra história. Você sabe quantos açudes existem na região do semi-árido em áreas particulares, mas construídos pelo estado? É um número louco: 70 mil. Isso equivale em água, por acumulação de chuva, a 15 vezes a Baía da Guanabara. Não falta água, mas vontade de fazer a ligação desses açudes aos municípios. Que façam adutoras. Tem um açude no Ceará, o Castanhão, obra ainda de Fernando Henrique, que custou bilhões e tem três vezes o volume da Guanabara. Sabe quem mais usa o Castanhão? O sol, pela evaporação da água. Por que, antes de desviar o São Francisco com essa obra bilionária, o governo não usa a água dos açudes para abastecer as cidades, o que é mais simples e não provoca danos ambientais? A outra opção seria usar o subterrâneo entre o Piauí e o Ceará, que é riquíssimo em água. Você sabia disso? São lençóis que podem abastecer o Brasil inteiro. Há 135 bilhões de metros cúbicos naquele subsolo. Se você juntar um ano inteiro de São Francisco desaguando no mar, não dá 100 bilhões de metros. Ou seja: é mais do que o rio inteiro. E essa água é tão fácil de tirar que tem regiões no Piauí onde a terra foi tamponada para não explodir.
Mas se o projeto parece tão furado porque insistem nele? Quais são os interesses maiores?
Não quero levar a coisa para o lado político. Mas outro dia, no casamento do Ivo Rosset com a Eleonora, eu estava na mesa com o filho do vice José de Alencar e uma socióloga muito ligada ao Lula, a Clara Ant, e disse a eles que, nessa questão, o presidente está mal assessorado. Certamente há três grupos interessados: os empreiteiros, pelo volume de obras, os políticos, pela possibilidade de anunciar "vou levar o São Francisco para o sertão", e os empresários que estão tocando na área grandes projetos de fruticultura e mineração - pois só 4% da água vai para os sertanejos. E isso com um impacto ambiental enorme, porque a região é rochosa e vai precisar dinamitar. O movimento de terra necessário para a transposição completa equivale à da construção do Canal do Panamá. Para levar o que a quê?
No mês passado você organizou aqui em São Paulo um ciclo de debates sobre a transposição, com a presença de intelectuais e artistas. Com seu prestígio social, você está conseguindo mobilizar as pessoas?
Tenho, sim. O que me levou a trazer esse debate para São Paulo é que, nas reuniões sociais, eu puxava esse assunto do rio e as pessoas não sabiam nada. Por que o governo não se preocupa, com todo esse dinheiro, em melhorar o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da região? O custo do projeto é estimado entre 10 e 14 bilhões de reais. Você sabe o que é fazer 700 quilômetros de canal em concreto, com 25 metros de largura e cinco de profundidade?
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