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Correspondente internacional


Reali JR., da Jovem Pan, é o mais antigo correspondente internacional na França 


Por Celso Arnaldo Araujo

"Antigamente, um correspondente estrangeiro tinha que falar lÍnguas. Hoje, tem de dominar a internet"

Você é certamente o mais antigo correspondente na Europa, não só do rádio brasileiro como de qualquer parte do mundo. Sente-se como um dinossauro?
Dinossauro, não digo. Mas nesses 35 anos houve uma enorme mudança no trabalho de um correspondente estrangeiro na Europa - para melhor e para pior. As qualidades que se exigem hoje de um correspondente não são as mesmas que se exigiam antes. Antigamente, basicamente você tinha de falar línguas. Hoje, precisa ter um domínio muito bom da internet. E, convenhamos, com 52 anos de carreira, é difícil acompanhar essa exigência com a mesma facilidade de um rapaz de 30. Não tenho grande dificuldade, mas não tenho maior interesse em me aprofundar nesse mundo virtual. É evidente que, logo que acordo, é obrigatório entrar na internet para checar as últimas, mas a credibilidade do veículo ainda é um problema.

Outro dia, aqui em São Paulo, caiu um avião na internet...
(Risos). Tem de tomar muito cuidado. Saiu muita coisa furada sobre o desquite do presidente Sarcozy e seu posterior casamento com Carla Bruni. Veículos importantes, como o site do Le Nouveau Observateur, foram obrigados a retratações públicas, porque tinham noticiado um telefonema, na véspera do casamento, do presidente para sua ex, Cecilia, no qual teria dito "se você prometer que volta, eu cancelo o casamento agora".

Quando você chegou a Paris, suas matérias para O Estado de S. Paulo eram despachadas na agência dos Correios. Isso parece incrível no mundo da mensagem virtual instantânea...
É, uma das agências de Paris, na Place de la Bourse, ao lado da France Press, era especializada em correspondentes estrangeiros, que faziam seu textos e os entregavam para transmissão ao Brasil. O problema é que, nem bem você chegava em casa, as coisas já podiam ter evoluído. E aí você era obrigado a voltar para refazer a matéria. Era um processo artesanal. Mas naquela agência se realizava o encontro de correspondentes do mundo inteiro. Havia uma interessante troca de informações. Depois, a coisa evoluiu para o telex e, agora, o computador.

Tem gente que pensa que correspondente em Paris fica só na sombra e água fresca, preferencialmente vinho, e de vez em quando manda uma notícia. É assim?
A rotina de um correspondente é muito diferente disso. Eu sempre levantei muito cedo para preparar o Jornal da Manhã da Jovem Pan, que entra no ar às 6 da manhã, 11 horas em Paris. E isso me dava uma boa estrutura para escrever depois as matérias que seriam enviadas ao Estadão. Essa foi minha vantagem em relação a outros correspondentes, que começavam a se mexer ao meio dia, quando eu já estava no batente há muito tempo.

Há 35 anos você trabalha no fuso Brasil-França, 5/6 horas de diferença. Às 8 da noite daqui é uma hora da manhã lá. Como é que você se adapta a isso?
Às 8 horas daqui eu já estou fora de combate lá. Mas vou até as 10 da noite de lá, cinco horas aqui. Isso é o normal. Mas quando há um grande acontecimento, eu acabo indo mais adiante.

Suas fontes de informação mudaram muito de quando você chegou para hoje?
Em alguns países da Europa onde o nazi-fascismo foi instalado, criaram-se centros de imprensa para melhor controlar os jornalistas estrangeiros. Esses centros de jornalismo, depois da guerra, permaneceram, mas com um uso mais democrático - e hoje oferecem todas as condições de cobertura para quem está chegando de pára-quedas num país. As eleições italianas eu cobri a partir da agência La Stampa. O mesmo acontece na Alemanha, na Polônia, onde as coisas funcionam assim. Mas na França, não. Como a França deixou de ter vida própria com a ocupação nazista, não há centro de imprensa e hoje você tem de criar suas próprias fontes. Isso leva anos. Por isso, o tempo dá muitas vantagens. Mas, na mudança de governo, muda tudo.O governo Sarkozy não é mais o governo Chirac nem o socialista - onde tive as melhores fontes. E também não tenho a mesma disposição de antes. Meu noticiário evoluiu para a análise comentada da notícia.

Suas fontes atendem bem o "Monsieur Realí, du Brezil"?
Sim, eu tenho muitos canais, mas o nível de atendimento depende do interesse de cada um. O interesse das fontes pelo Brasil é muito relativo. O que um correspondente do New York Times consegue com facilidade, o brasileiro tem dificuldade. Não por preconceito, mas porque sair na imprensa brasileira às vezes não interessa.

Parece incrível, Reali, que você tenha coberto, em carne e osso, a queda e a morte dos últimos ditadores da Europa, como Salazar, em Portugal, Franco, na Espanha, e o Ceausescu, na Romênia. Toda ditadura é detestável, mas do ponto de vista da cobertura, a Europa totalmente livre não ficou meio sem graça?

Em certa medida, sim, e isso vale para o Brasil. Da Europa, cobri durante 10 anos o final da ditadura brasileira, o terrível período conhecido como os anos de chumbo. Em Paris se concentravam muitos exilados, inclusive freqüentando minha casa, que depois se tornaram ou voltaram a ser governantes ou dirigentes de partidos, como Brizola, Arraes e Prestes. Na Europa, a queda do muro e dos últimos ditadores foi saudada como um fato político auspicioso, mas do ponto de vista da cobertura, de fato, passamos a um marasmo. Por isso, de vez em quando a gente tem de dar uma cacetada no Sarkozy...

Que aliás é um alvo fácil...

Fácil. Você vê o declínio político da França pelos presidentes que cobri desde que cheguei a Paris. Quando comecei, o presidente era Pompidou. Depois, Giscard d´Estaing, Mitterand, Chirac e agora o Sarkozy, uma escala de involução. Isso também em outras áreas. Quando cheguei à França, Sartre e Simone de Beauvoir estavam vivos - aliás, cobri o enterro de ambos. Picasso estava vivo - e ainda sou muito amigo de uma enteada dele, que foi casada com um brasileiro. Participei da vinda do Yves-Montand para o Brasil, pois ele se recusava a vir enquanto perdurasse o regime arbitrário. Quando começou o processo de abertura, procurei-o em nome do José Halfin, da Air France, para convidá-lo para a entrega do Prêmio Molière. E, quando falo da decadência da França, estou falando da Europa toda. A União Européia cada vez ganha mais poder e os países vão perdendo sua identidade nacional. A França e a Inglaterra, particularmente, perderam muito de seu poder para a União Européia. O Parlamento Europeu, que era pró-forma, já tem poder de decisão.

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