 Guerreiro do Palco
Marco do teatro brasileiro, Renato Borghi completa 50 anos de carreira como ator, exercendo também as funções de autor, diretor e produtor. Amante dedicado e deliciado pelos palcos, foi um dos responsáveis pela diversificação da cena teatral no Brasil, levando instrução, informação, reflexão e, acima de tudo, entretenimento qualificado para um público em crescente demanda cultural Por Laura Wie
"INDISCUTIVELMENTE, O QUE EU GOSTO MAIS É DE REPRESENTAR"
É inegável que sempre que um ator representa um personagem absorve dele um pouco em sua vida. Foi assim que encontrei Timão de Atenas, Galileu Galilei, Édipo Rei, o Papa Urbano VIII, Rui Barbosa e outras tantas célebres e também anônimas personalidades na figura única de um homem do teatro: uma simbiose que exala grandiosidade por todos os poros.
Renato Borghi viveu 50 dos seus 71 anos de idade às voltas com a criação de novas vidas, textos e encenações. A possibilidade de comunicação imediata com o público fez com que trocasse o recém-conquistado diploma de Bacharel em Direito pelos palcos. Juntamente com seu colega universitário José Celso Martinez Corrêa, fundou no início dos anos 60, o Teatro Oficina, encenando peças fundamentais para a história brasileira.
Nos anos 70, desliga-se do Oficina, montando com a esposa Esther Góes um novo grupo: o Teatro Vivo. Comprometido com a resistência contra a ditadura militar, atuou em diversas peças que traziam à tona os conflitos e a transgressão daquela época. Já a década de 80 trouxe grandes êxitos comerciais: escreveu a "A Estrela Dalva", estrelado por Marília Pêra, e "Lobo de Ray-Ban", com a atuação de Raul Cortez e Christiane Torloni.
No ano de 1993 cria, ao lado de Elcio Nogueira Seixas, o Teatro Promíscuo, cujo repertório passeia tanto por autores contemporâneos brasileiros, quanto pelos grandes clássicos como "Tio Vânia" e "Jardim das Cerejeiras", ambos do russo Anton Tchechov. Ganhador de inúmeros prêmios teatrais, Borghi volta ao cartaz ainda este ano com sua última produção, a tragicomédia "Cadela de Vison", a segunda parte da trilogia iniciada com o "Lobo de Ray-Ban". Acompanhe alguns dos momentos mais importantes de um verdadeiro, versátil e eclético senhor dos palcos: Renato Borghi.
O início de tudo
Encontrei o zé celso no terceiro ano da Faculdade de Direito no Largo São Francisco e a gente falava muito de música. O Zé adorava a Isaurinha Garcia e a Dalva de Oliveira. Nós dois compúnhamos e ficávamos tentando levar as músicas para a Maysa, para a Elizeth Cardoso... Eu também cantava e tive a oportunidade de ser ouvido pelo Jordão de Magalhães, que lançou o Agnaldo Rayol. Ele me contratou para a boate Cave, ensaiando para estrear dali a 4 meses. Mas aí, ganhei o teste para fazer o protagonista do (espetáculo) "Chá e Simpatia", dirigido pelo Sérgio Cardoso, com a Nydia Licia e o Carlos Zara e fiquei encantado! Deixei o homem xingando na porta da boate e fui embora... Estou no teatro até hoje.
Teatro Instigante
Eu semPre Quis fazer teatro que não fosse para nada. Eu acho que a diversão é essencial, mas através da diversão eu sempre quis chegar à platéia provocando alguma inquietação interior, algum desejo de mudança. O meu teatro sempre foi muito voltado para isso: a transformação.
Teatro da resistência
Foi muito imPortante a minha participação toda na resistência contra a ditadura: escrevemos muitas peças que diziam ao público o que a gente achava que precisava ser dito, mas através de metáforas, de alguma coisa que a censura militar não podia proibir. Me uni ao Othon Bastos e a Martha Overbeck e fizemos juntos "Castro Alves Pede Passagem"(1971), "Um Grito Parado no Ar"(1973), ambos de Gianfrancesco Guarnieri. "Murro em Ponta de Faca" (1979), do Augusto Boal, era pela volta do exilado e provocou um movimento grande. Em 1980 atuei em "Calabar", do Chico Buarque e Ruy Guerra. O teatro contribui firmemente para que as pessoas saiam motivadas a entrar em ação.
Teatro Promíscuo
O MEU GRUPO ATUAL quer ter contatos com todas as tendências. Um exemplo de promiscuidade absoluta é o "Jardim das Cerejeiras", no qual trabalhei com todas as tendências do teatro brasileiro: Tônia Carrero, do TBC, Beth Goulart, que vinha da família Goulart, Dirce Migliaccio, que vinha do Arena, e também um bando de jovens. O prazer nosso é unir essas criatividades e daí conseguir uma unidade de espetáculo. Que o Promíscuo seja a arte contaminante.
Deslumbramento X Desilusões
ME REALIMENTO SEMPRE com (Anton)Tchekhov, (Máximo) Gorki... Adoro a literatura russa de (Fiodor) Dostoievsky e (Nikolai) Gogol. Me deslumbro também com o Brecht, que é um autor que fiz muito. Eu gostava muito das peças brechtianas. O recado dele pelo socialismo hoje em dia está em discussão. Estamos em um momento em que os inimigos do socialismo conseguiram provar para a Humanidade que não funciona. Estamos vivendo o triunfo do Neo-Liberalismo.
Dedicação Integral
QUANDO COMECEI A FAZER teatro, minha geração tinha uma coisa muito clara: todo mundo queria ser um bom ator, fazer grandes personagens. Hoje, sinto que as pessoas são talentosas, mas no final te puxam e querem saber como entrar na Globo... Os atores iniciantes de teatro, que vivem só de teatro, levam uma vida bem difícil... Tem que fazer teatro e correr nos testes de publicidade, o que acaba diversificando o centro de atenção. Na minha época era teatro o tempo todo.
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