Grafite
 Osgemeos criação em dose dupla
Uma dupla de artistas plásticos de São Paulo está deixando sua marca para as futuras gerações: tanto nas ruas e em prédios nos quatro cantos do mundo quanto em refinadas galerias de arte, os irmãos Otávio e Gustavo Pandolfo, que assinam como osgemeos, exprimem suas visões e talento por meio de uma arte colorida, lúdica e com toques fantásticos. Uma expressão artística competente e impactante Por Laura Wie

Grafite Brasileiro
Conquista Londres
"Já que tivemos liberdade total de criar algo para a fachada da Tate Modern em Londres, pensamos no 'gigante' que a gente desenvolve nas laterais dos prédios - aquela coisa superpositiva e ao mesmo tempo meio política: fizemos um personagem com uma máscara na cabeça segurando um monte de câmeras - como se ele tivesse coletado as câmeras em Londres inteira"
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Uma semana foi o tempo que osgemeos levaram para pintar a fachada de uma das instituições de arte mais importantes do mundo, a Tate Modern, durante a exposição Street Art: o impacto do gigante amarelo, marca dos artistas |
Otávio e Gustavo me receberam em seu novo estúdio/ ateliê paulistano no meio de uma grande produção - as obras que iriam, em seguida, viajar para exposição no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba: grandes painéis, instalações em processo de pintura, instrumentos musicais coloridos, um fusca sem capô sendo adaptado como obra de arte e muita tinta colorida. No meio de tudo isso, artistas em franca ascensão, que evoluíram da arte de rua para a chamada arte contemporânea, com o mérito de manter o traço que caracteriza e referencia o seu trabalho. Nascidos no Cambuci há 34 anos, os gêmeos idênticos construíram este espaço de criação e experimentação à distância de poucos metros da residência da mãe, onde passaram a infância. O bairro tem o jeitão informal deles e, pelas figuras de cores vivas que vemos pelas ruas adjacentes antes de chegar, dá pra dizer que os caras são, literalmente, os donos das ruas. Osgemeos - que assinam assim mesmo, grudando as palavras - fizeram parte da primeira geração "séria" de grafiteiros de São Paulo. Depois das aventuras de pintar os muros de um bairro de classe média, tomaram de um só fôlego o mundo, que se apaixonou pela vibração do trabalho dos artistas. Conversar com eles foi uma das experiências mais agradáveis e engraçadas que tive: um termina a resposta que o outro começa, demonstrando que não só na pintura, como também na maneira de ver e viver, osgemeos pensam como um só.
Meninos, quando é que tudo começou?
Faz mais ou menos 20 anos, aqui no Cambuci. A gente trabalhava em banco e curtia brincar e desenhar, quando conhecemos o grafite e a cultura hip-hop com os meninos daqui do bairro.
E antes disso, como o desenho entrou na vida de vocês?
A gente já gostava de desenhar desde pequenininhos, brincávamos desenhando. A gente pegava uma foto e transformava em alguma coisa, pegava um brinquedo, desmontava e montava outro. Acho que sempre tivemos essa coisa criativa.
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| A inusitada pintura dos gemeos engloba a galeria Forte Vilaça durante a exposição O peixe que comia estrelas cadentes, de 2006 |
E a mãe e pai de vocês, o que pensavam disso?
Sempre tivemos total liberdade, sempre nos apoiaram muito. Começamos a pintar dentro de casa: o quarto, depois a sala, e aí fomos para a cozinha, o quintal, até ir para a rua! É que, na verdade, pintar o grafite fazia a gente ficar meio com receio, com vergonha de chegar e meter as caras, porque a gente tinha de fazer um trabalho bom antes de ir para rua. Foi por isso que começamos a trabalhar dentro de casa: pra poder aprender a pintar.
Vocês começaram a pensar em um projeto pra poder levar para a rua?
É, aprender a usar o spray pra poder fazer um traço, um contorno onde tinha que ser feito.
A pintura que vocês fazem tem muitos detalhes... Como vocês definem este perfil?
Primeiro a gente começou a buscar, fazer por conta mesmo, e ficamos desenhando até dizer: vamos seguir este perfil! Até então era só, vamos dizer, aquela coisa de grafite fora do mundo, não tinha nada aqui - eu vi numa revista uma foto de grafite que se fazia nos Estados Unidos - era uma realidade muito difícil, existia um livro e dois filmes! A gente queria aprender de qualquer jeito e por um tempo ficamos muito ligados no estilo de grafite que se fazia lá, até dar a luz: já é hora de seguir o nosso caminho! Foi nos anos 90 que realmente mergulhamos de cabeça no nosso mundo, desenhando até pegar um caminho bom. Mas desde os anos 80 tínhamos a necessidade de muitos detalhes no nosso trabalho... Acho que é a vontade que a gente tem de falar. Isso é uma característica do que criamos: não só os detalhes, mas um contorno que viabiliza colocar a quantidade de detalhes que a gente utiliza: o desenho dos personagens, as estampas das roupas deles também... Cada um é de um jeito - uma figura sempre diferente da outra - mas que fazem um padrão.
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