 Diário desbunde
Vania Toledo, em registros instantâneos dos anos 70, 80 e 90,
capta cenas ousadas (do dia e da noite) em retratos feitos nas cidades do Rio de Janeiro - como a de Ney Matogrosso de fio
dental em Ipanema -, São Paulo, Londres e Nova York Por Aroldo de Oliveira_Fotos Vania Toledo
No camarim, na festa improvisada depois de um show badalado, Caio Fernando Abreu abraça Cazuza em meio a muito champanhe e cigarro; em outra cena, Ney Matogrosso posa de fio dental nas areias de Ipanema à luz do sol; Dina Sfat é surpreendida só de roupão em seu apartamento, no Rio; Gal Costa, em traje psicodélico, aparece para uma feijoada na casa de amigos. Estas e outras surpresas fotográficas foram registradas por Vania Toledo com uma câmera amadora. Com este inédito material, ela fez, inclusive, uma exposição na Pinacoteca do Estado - que acabou no final deste mês de outubro. A mostra Diário de uma Bolsa: Instantes da Alma, continha cerca de 150 imagens incríveis produzidas por Vania durante os anos 70, 80 e 90.
Neste período, ela circulou pelas principais baladas do Brasil e do mundo fotografando personagens da noite - e do dia. "Era um clima de volúpia, liberdade e despudor. Meu vício é gente! Adoro fotografar pessoas e o comportamento em situações adversas.
A maquininha, naquela época, não intimidava ninguém e tudo podia acontecer na atitude do fotografado, porque nada era levado a sério.
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CÂMERA NA MÃO
Capa do livro Vania Toledo - Diário de Bolsa, que a fotógrafa lançou junto com a abertura da exposição que esteve em cartaz na Pinacoteca do Estado, em São Paulo. Com uma máquina amadora, ela captou fl agras do universo artístico. Acima, auto-retrato de Vania Toledo - São Paulo, 1991 |
A espontaneidade, sim, era levada muito a sério. A alegria, o deboche e a liberdade imperavam", diz ela, sobre as noites que passou à caça de flagras, principalmente nas noites cariocas.
Em Nova York, com Andy Warhol
Entre as andanças de Vania Toledo não só no Brasil, mas em noitadas frenéticas por Londres e Nova York, há uma ocasião que ela considera imperdível. Entre as muitas festas a que foi no Studio 54, em Manhattan - no qual apenas alguns eram escolhidos para entrar em meio a muitas celebridades e purpurinados - Vania estava lá com sua câmera portátil Yashica flagrando gente como Truman Capote, Harper Lee e Andy Warhol na pista de dança. Ela conta que ficou tímida diante de Warhol, mestre da pop art: "Porque ele tinha maquiagem, peruca e era um homem fake, mas de ousadia estética enorme", diz, enfatizando que se trata de um de seus maiores ídolos. "Ele me ensinou a fotografar com uma câmera qualquer para, depois, mostrar com orgulho." E completa:
"O bacana é que as imagens mostram uma intimidade que poucos fotógrafos têm a coragem de mostrar, porque contêm erros, não são esteticamente perfeitas." Em São Paulo, Toledo flagrou a estréia da minissaia na pista da Aquarius, os VIPs da Gallery e os primeiros transgressores (punks, jornalistas, etc) no Madame Satã.
Mineira com sotaque cosmopolita
Vania Toledo nasceu em Paracatu, Minas Gerais, e se mudou para São Paulo aos 13 anos, onde começou a fotografar, nos anos 70, para o Aqui São Paulo, extinto diário. Ela é formada em Ciências Sociais e deu seus primeiros clicks como fotógrafa amadora. Em 1978 começou a fotografar profissionalmente e trabalhou para importantes revistas, como Vogue e Interview, Time, Life e Connâiseur. Conquistou prêmios como Cidade de São Paulo (1983), Abril (1985, 86, 87 e 88) e em 1993 o Prêmio APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) como melhor exposição. www.vaniatoledo.com.br |
Tropicália, drogas e aids
Vania Toledo registrou, com sua pequena câmera, da abertura sexual - que começou com a minissaia e terminou com a busca do sexo pelo sexo - até o ponto que culminou com a explosão da epidemia da aids. Daí, abandonou a noite. "No caso do retrato do Caio Fernando Abreu com o Cazuza, no camarim depois de um show, eles já estavam tomando remédio e sabiam que tinham aids, mas essas pessoas nasceram para se divertir", observa ela. A exposição, que aconteceu na Pinacoteca, e que também gerou um livro das imagens mais marcantes desse período, estava dividida entre as fotos das festas e as imagens captadas de dia, com artistas (músicos em geral) bem à vontade, em casa ou na praia. Bom exemplo é a foto que mostra Caetano Veloso em sessão de cinema, no Leblon, ou a que retrata Sidney Magal no vidro do elevador de sua gravadora, em 1980. Quanto às imagens noturnas, importante também citar fotos como a de Rod Stewart olhando admirado para a festa em sua suíte no Copacabana Palace, em 1978; e a que foca Elis Regina no camarim de seu show Transversal do Tempo, no Rio de Janeiro, em 1979, entre tantas outras.
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