 |
De alta funcionária a alta empresária, como foi isso?
Durante 24 anos, "estive executiva". Nas últimas três empresas em que trabalhei, fui presidente: Philips Morris, Walita e White e Whitehall. E, ao longo desse tempo, fui percebendo que, toda vez que eu saía da empresa, ela estava melhor - e eu também. Pela lógica, se começasse a minha empresa, eu cresceria como empresária com o que aprendi até aqui. Mas tive de remodelar minha cabeça nos últimos dois anos para pensar de um jeito diferente. O executivo trabalha com dinheiro alheio. Antes de me tornar empresária, me convenci de que ninguém investe em que não se investe. Quando deixei de ser executiva, sabia que isso iria requerer de mim uma atenção muito diferente, mais focada em valorizar pequenas coisas. Já dirigi Ferrari, no sentido de que comandei grandes organizações. Agora dirijo um New Beetle - charmoso, elegante, com designer avançado, fabricado por uma marca consagrada, mas com desempenho modesto perto de uma Ferrari. O desafio é não tentar dirigir um Beetle com a velocidade de uma Ferrari. Isso requer humildade, porque o empresário tem de fazer coisas com suas próprias mãos, não há botões para apertar, como um superexecutivo.
Saiu há pouco um livro, Zona de Coragem, do consultor Sergio Mena Barreto, em que ele sustenta a tese de que os executivos mais bem sucedidos costuma deixar ciclicamente sua "zona de conforto" para enfrentar novos desafios. Você é assim?
A Madonna é assim - vira e mexe aparece de outro jeito e continua um fenômeno aos 50 anos. Mas, para se reinventar,você não precisa se tornar uma outra pessoa. Continuar sempre o mesmo significa cansar de si próprio. Adoro o desafio de aprender coisas que não sei. Quando trabalhei na indústria farmacêutica, tive que aprender a falar "dimetilaminofenil de metilprednisolona". Minha história é marcada por momentos de saltos, onde eu ficava por alguns momentos no ar. Pisei em lugares onde as mulheres ainda não tinham pisado, em segmentos onde só tinha homem, como na Philip Morris, onde fui a primeira mulher na diretoria. Essa reinvenção é superbacana, mas as pessoas têm medo de mexer onde estão seguras. O negócio é sentar, pegar uma garrafa de água com gás, uma barra de chocolate amargo, e dizer para si mesmo: deixa eu rever o que estou pensando para ver o que tenho de fazer daqui a cinco anos. Perdi meus pais muito cedo. Quando você perde os pais, que são seu norte, é preciso buscar esse norte o tempo todo.
E por que cosméticos? Interesse próprio?
Claro que há aí um apelo feminino, mas eu tinha de começar num mercado que tivesse não apenas o glamour mas um crescimento de no mínimo dois dígitos. Fui ver os números. A América Latina é o continente que mais cresce nesse segmento. O Brasil, aliás, é o terceiro mercado do mundo - atrás apenas dos EUA e do Japão. Nos últimos 24 anos, a média de crescimento do mercado de cosméticos no Brasil foi de 12% ao ano. E o setor de cabelos, particularmente, é um fenômeno - um quarto do mercado. Diante da participação crescente da mulher no mercado de trabalho e do fato, universal, de que ela gasta 20% do salário em cosméticos, seja em qualquer classe social, optei pelos cosméticos. E é um mercado permanentemente estimulante - é preciso lançar novos produtos a cada seis meses. A consumidora costuma fazer troca de marcas, experimentar, e a empresa que entra nesse mercado tem de estar disposta a inovar sempre. Com o aumento de expectativa de vida e do desejo de bem-estar, é um mercado fabuloso. Fatura 21 bilhões de reais no Brasil. Do business plan ao lançamento, a Sina levou nove meses - pra chamar de parto. É coisa de chinês. Começamos com 15 itens, hoje estamos com 110.
Qual é seu perfil de consumidora?
Desenhei minuciosamente, no nosso business plan, a consumidora com quem nós queremos falar. Ela não quer ser valorizada apenas por seus atributos físicos, mas pelo conteúdo também. Não quer ser uma mulher artificialmente linda - mas uma bela mulher, bonita por dentro e por fora. Em suma, uma mulher plugada em outros valores que não apenas a estética. Para essa mulher, os cosméticos são um item de realização pessoal - em termos de atitude, intimidade consigo mesma, harmonia com a natureza. Essa mulher não está disposta a qualquer coisa para ficar bonita, mas a envelhecer de maneira respeitosa. Não tenho nada contra a cirurgia plástica, mas eu, pessoalmente, vou postergar até os 48 minutos do segundo tempo.

Equipe rosa
Uma empresa enxuta, mas afinada com os ideais de Amália -o time da Sina Cosméticos joga bonito para levar a Amazônia para o mundo
A moda agora são os cosméticos éticos. Qual é seu conceito de ética nos cosméticos?
A Sina Cosméticos é uma empresa genuinamente brasileira, onde a gente faz desde a fórmula até o produto final. Todas as fórmulas são nossas, as fragrâncias são exclusivas, todo o desenvolvimento dos produtos é feito aqui. Chamar de ético um produto de qualidade é muito pouco. Ter qualidade é obrigação, não uma vantagem corporativa. Evidentemente, não testamos cosméticos em animais. Mas nosso conceito de ética é mais abrangente. Só compro matérias-primas da Amazônia legal, de gente que tem certificado. Pagamos todos os impostos. Registramos todos os funcionários. Como nascemos lá fora e vendemos para grandes corporações, nosso padrão é exportação. Para exportar, é preciso ter todos os documentos corretos, rigorosamente. Informalidade é uma doença. Tenho noção clara da importância de se manter ético para crescer. Ganhar no curto prazo significa perder lá na frente. Toco a Sina com a mesma seriedade com que eu presidia grandes empresas.
Você é workaholic assumida?
Em termos. Sou como a CNN - estou 24 horas no ar. Se você tirar os olhos do cliente por um minuto, você se perde. Ser dono é trabalhar mais. Mas minha família vem em primeiro ligar. Estou há 15 anos no meu primeiro casamento, meu marido é amoroso, meu filho é centrado, tenho uma família completa. Procuro, o máximo que posso, não ir a coquetéis ou eventos noturnos, gosto de estar em casa no jantar. Como executiva, isso era impossível. Cheguei a ficar três meses fora do Brasil, quando fui para a Rússia. Pela primeira vez, meu filho iria ficar tanto tempo longe de mim, mas tive uma consolação: convenci meu marido de que meu filho precisava de um cachorro. E meu marido, que no começo dizia "se o cachorro entrar por uma porta, eu saio por outra", aceitou.
Esse apelo do "cosméticos da Amazônia" é poderoso no exterior?
Nós nascemos na Cosmoprof de Milão - a maior feira de cosméticos do mundo. Temos hoje contratos firmes com cinco países - Estados Unidos, Alemanha, Dinamarca e Inglaterra. Os ativos da Amazônia, como castanha, guaraná e açaí, têm apelo fortíssimo. O Brasil está na moda. A Amazônia é sonho para uma dinamarquesa, por exemplo. Nossos produtos são vendidos como algo aliado à preservação do planeta e ao bem-estar. E têm, para boa parte do mundo, o mesmo apelo que tinham os perfumes franceses para nós, quando tudo era importado. Além disso, a brasileira é vista como uma das mulheres mais bonitas do mundo.
PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >> |