 A volta do bufão Por Edgar Olimpio de Souza Foto Daniel Cancini
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"ANTIGAMENTE EU FAZIA SETE SESSÕES POR SEMANA. HOJE, SÓ DE SEXTA A DOMINGO. VIROU ATIVIDADE DILETANTE, COMO SE DEDICAR AO GOLFE E OUTRO À FILATELIA. FA ZER TRÊS SESSÕES SEMANAIS, MESMO COM SUCESSO, NÃO PAGA AS CONTAS" |
Aos 54 anos, ele está prosa como um menino. Uma das razões é o lançamento do livro de capa dura que relata a trajetória de três décadas do grupo Ornitorrinco, fundado por ele e uma das mais festejadas companhias teatrais do País. Prestes a sair do forno pela Imprensa Oficial, a publicação reunirá depoimentos de atuais e antigos ornitorrincos, além de um painel de imagens que fizeram a história desta anárquica trupe, criada no porão do teatro Oficina com o espetáculo de hálito underground Os Mais Fortes, de Strindberg. O outro motivo de orgulho do ator, diretor e figura-símbolo da companhia é a recente e bemsucedida carreira de A Megera Domada, de Shakespeare, que arrastou 45 mil pessoas em menos de quatro meses em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso. "O sucesso do grupo tem vários ingredientes e um deles é que conseguimos nos comunicar com uma diversidade de espectadores, como uma terceira via entre o teatro comercial e o de gueto", explica. Nesta entrevista, realizada em seu amplo apartamento no bairro de Higienópolis, Cacá Rosset relembra as "férias remuneradas" que passou nas mesas-redondas de futebol, fustiga a cultura de celebridades, cutuca a submissão dos atores à televisão e critica a desprofissionalização do ofício teatral. "O teatro virou pit stop para a pizza"
O Ornitorrinco mudou muito nessas três décadas?
O mundo mudou, 30 anos atrás eu nem era nascido. Eu acho que as premissas fundamentais e artísticas do grupo permaneceram: a idéia de fazer e de ser um teatro popular, que se comunica com uma diversidade de espectadores e não se aloja num gueto; um teatro de qualidade, com grandes autores, temas e discussões; tratar o fenômeno teatral como oportunidade única de trazer e garantir ao espectador uma experiência que ele só vai encontrar no teatro, algo cada vez mais raro neste mundo virtual. Hoje, até o sexo não é mais ao vivo. Para completar, o Ornitorrinco diverte o espectador e foge da falsa dicotomia no Brasil de que ou se faz teatro de gueto ou se faz teatro com atores globais. Somos a terceira via. Com todas as idiossincrasias possíveis.
Alguns críticos acham que o grupo perdeu a força e o impacto do passado...
O grupo precisa ser avaliado dentro de um contexto. Veja a imprensa escrita. Nos anos 1980 os jornais tinham uma ressonância avassaladora. Hoje, se influenciarem 10% é muito. Eu era um ávido leitor de jornais, durante 30 anos assinava três. Há oito meses cancelei a última assinatura, mas leio dez jornais pela internet. A imprensa guttemberguiana perdeu a relevância. Os leitores ficaram mais velhos e os jovens buscam outras fontes de informação. O teatro é menos impactante hoje como fenômeno cultural. A relação do público com o teatro mudou. Até pouco tempo atrás, era o grande evento da noite. Hoje é pit-stop para a pizza. Quanto mais curto, melhor ainda. "Vamos lá, só tem 50 minutos!". Um alívio. Mas acabei de fazer uma peça na qual coloquei 900 pessoas por sessão. É coisa pra macho.
Quais as principais lembranças que você guarda de todo esse período?
O sucesso fenomenal de Ubu, que levou mais de 350 mil espectadores. Outra, a do elefante que foi proibido de entrar em cena em O Doente Imaginário pela Marilena Chauí, então secretária de Cultura da Erundina. O anárquico Pai Ubu, que saiu dos palcos e ganhou vida própria, deixando de ser personagem de ficção para se tornar personagem de fricção.
O teatro está em crise, como sempre se diz?
A coisa anda feia porque até críticos decidiram fazer teatro. O Alberto Guzik virou ator. O Nelson de Sá chegou a dirigir espetáculo. Chegamos ao máximo da entropia. Temos em cartaz hoje em São Paulo uma quantidade impressionante de espetáculos. Outro dia contei 134 montagens profissionais. Nem em Nova York e Londres é assim. Mas, paradoxalmente, o teatro se desprofissionalizou. Antigamente eu fazia sete sessões por semana, de quarta a domingo, com duas sessões aos sábados e domingos. Hoje, só de sexta a domingo. Virou atividade diletante, como um fulano que se dedica ao golfe ou à filatelia. Três sessões semanais, mesmo com sucesso, não paga as contas. É uma equação perversa: mesmo que dê certo, não se sustenta.
A televisão é a vilã?
É um veículo pernicioso e os atores abriram as pernas para ela. Em priscas eras os atores batiam o pé: a gravação ía até determinada hora porque depois iam pegar a ponte-aérea para fazer a peça. Agora, acovardaram-se. Atores que só fazem tevê pagam dízimo cultural no teatro em busca de prestígio. O pior é que isso acaba determinando a estética: os teatros são ocupados por onze espetáculos simultaneamente. Tem uma peça de sexta a domingo, outra às quintas, outra de segunda a quarta, outra à meia noite de sábado, com uma série de restrições, como cenário desmontável. Chegam a dar conselhos: "É até melhor, vai sair baratinho!". É natural que o dono do teatro queira ganhar. Mas, do ponto-de-vista da criação, é a morte. Muitos teatros têm uma rotatividade maior que a dos motéis.
A vulgarização da profissão é um processo irreversível?
Há um certo descompromisso de quem faz teatro. Raras pessoas vestem a camisa de um projeto, até mesmo os de cunho pessoal. Não me refiro ao compromisso contratual, mas ao compromisso de sentido existencial, artístico. Vestir a camisa de um projeto não porque foi chamado e não tinha, mas porque estava a fim de fazer. O ofício de ator de teatro desapareceu. Existe nas entressafras da carreira.
Apesar do cenário negativo, a temporada de A Megera Domada foi bem...
Em três meses e meio levamos 45 mil espectadores ao Teatro Sérgio Cardoso. É um teatro bacana, com dimensão de palco e platéia. Em compensação, o restante é terrível. Os elevadores são pessimamente conservados e sistematicamente quebravam. Uma vez um casal de idosos ficou a peça toda trancado, tivemos que chamar os bombeiros para resgatá-los. É um teatro subutilizado, tem ratos, as salas de ensaio que antes eram gratuitas agora são pagas. O número de camarins diminuiu e tivemos dificuldades em acomodar os 25 atores.

Flashes dos 30 anos do Ornitorrinco:
acima, montagem de Sonho de uma Noite de Verão, de Shakespeare, em Nova York, e O Doente Imaginário, de Moliére. Acima, um dos primeiros espetáculos do grupo, Canções do Porão. Cacá tinha cabelos e barba
O Antônio Fagundes costuma dizer que os atores de hoje gostam mais de mostrar suas casas do que falar de seus trabalhos...
É a cultura das celebridades. Trata-se de uma indústria que existe no mundo inteiro, mas colou de forma impressionante no Brasil. O que mais incomoda é a tabloidização dos cadernos culturais. A revista Caras fazer o que faz, tudo bem. O duro é ver os cadernos culturais perderem a preocupação de aprofundar a discussão da cultura, que virou sinônimo de entretenimento. O espaço dado ao novo namoro da Deborah Secco é mais importante que a estréia de uma peça de Shakespeare. Os jornais não são burros, querem vender, e perceberam que existe demanda para isso, que há um público ávido por saber da última lipoaspiração da Preta Gil.
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