Gloria Kalil
 Etiqueta: As novas regras de ouro Por Celso Arnaldo Araujo Fotos Daniel Cancini Coordenação Sidney Osiro
Se você procurar a palavra “chic” nos dicionários, ela virá acompanhada, sempre, de uma foto da jornalista e consultora de moda Gloria Kalil – com sua beleza madura, discreta e, evidentemente, chique. Se a foto não aparecer, será uma gafe do dicionarista. Ela começou a carreira fazendo jornalismo de moda ortodoxo e começou a perceber que dúvidas sobre roupas quase sempre vinham acompanhadas de questões sobre etiqueta – o que usar com que e quando? Posso usar decote no trabalho? O que devo vestir num primeiro encontro? E então Glorinha, bem nascida e bem criada, enveredou por esse mundo em que ser elegante vai muito além de estar apenas bem vestido. Em suas participações na TV, com seu site e através dos livros que lançou – sempre com a palavra Chic como marca registrada – ela ajudou a construir pessoas mais civilizadas. Mas ainda falta muito. Porque o mundo de hoje é cada vez mais deselegante.
 |
“A liberação dos costumes tornou a traição conjugal menos chocante para a sociedade – mas, do ponto de vista individual, para o traído ou traída ainda é um cataclisma, um trauma” |
 |
Os nostálgicos dos anos 50 e 60 têm a nítida sensação de que tudo era melhor no passado, tudo era mais elegante e refinado. Isso confere?
Nem tudo era melhor. Mas o grande complicador dos dias de hoje é a transmissão da educação. Antigamente havia um ambiente mais propício à transmissão de valores. As pessoas almoçavam e jantavam em casa. Lembro de meu pai vindo da cidade todos os dias para almoçar. Eu também vinha almoçar em casa, quando comecei a trabalhar na editora Abril. Todos juntos à mesa, regularmente. A mesa é um local onde as pessoas conversam sobre seu dia-a-dia, problemas no trabalho, escola ou vida pessoal – e ali quase tudo se resolve com uma palavra. Os pais transmitiam regras de educação formal, do tipo “não coma com a boca cheia”, “tira o cotovelo da mesa”, e também de convivência social. Outra diferença é que as famílias eram mais coesas. Hoje, há muitos pais separados – e ninguém quer se sentir “repressivo”, confundindo repressão com transmitir educação. Ambos, pai e mãe, querem ser os bonzinhos. As mães trabalham fora e, no pouco tempo que passam com os filhos, sentem culpa em dizer não. Os pais, que não moram com os filhos, idem. Com tudo isso, a educação ficou pior. E as pessoas, em geral, sabem muito pouco sobre questões de civilidade.
Você acompanha o Big Brother?
Nunca vi na minha vida. Aliás, fico espantada quando ouço artistas e celebridades se queixando da “falta de privacidade”. Ora, quem se queixa sou eu – eles é que invadem a minha casa. Não tenho nenhum interesse em conhecer essas pessoas, que aliás não têm interesse algum para ninguém.
Uma das participantes deste ano, que é apresentada como “professora”, disse que não sabia o que era incesto. Nunca tinha ouvido falar. Isso é possível?
Também me disseram que o Bial usou o termo “paradoxo” e ninguém sabia do que se tratava. Mas essa ignorância não é privilégio do Big Brother. A educação formal é muito ruim nos dias de hoje, mas o pior mesmo é a falta de transmissão dos valores ligados aos modos e às boas maneiras de convivibialidade. Esses valores são hoje muito raros.
Ainda existem gentlemen como no passado? É uma questão de berço?
Existem jovens bem educados, mas ninguém nasce assim. É uma questão de educação. Elegância física pode até ser natural – uma pessoa com 1m80 e magra costuma ter andar de felino. Um tigre é mais elegante do que um elefante. Mas essa é uma questão de configuração física. Educação, gentileza e civilidade se aprendem. Se o filho do Príncipe Charles fosse criado numa aldeia indígena, ele teria os mesmos modos de um índio. Civilização é uma questão de aprendizagem.
As pessoas costumam relacionar a criminalidade a um nível social baixo, mas na alta sociedade há um enorme potencial de violência...
Há selvagens iguais. Há boçais em todas as classes sociais. Você vê pessoas aos berros, prepotentes, elas provavelmente não percebem que estão agindo como boçais. É óbvio que um adulto pode deixar de ser boçal se quiser – é uma questão de educação, de aprendizagem. Mas, em geral, não percebem – e não se modificam.
Você concorda com a tese de que mulher é mais barraqueira do que homem?
Absolutamente. Já vi muitos barracos em que saem socos, pontapés e até tiros. Quantas mulheres você já viu envolvidas nesses episódios? A mulher pode eventualmente falar alto, se exaltar, se estapear, sem o mesmo potencial de violência. Mas reconheço que, em algumas situações de igualdade, a mulher possa ser menos “civilizada”. No trânsito, por exemplo: mulher não dá passagem a ninguém. É como se ela pensasse assim: aqui nós somos iguais; e ninguém vai passar na minha frente... Porque ela se sente constantemente passada à frente por um homem.
É muito comum as mulheres tropeçarem por aí nos ex, devidamente acompanhados. Como se comportar diante da nova mulher do ex-marido?
Hoje em dia, as novas composições familiares estão bem estabelecidas. No começo é mais difícil aceitar. Mas é preciso ter na cabeça que se trata de um fato social quase inevitável: em algum momento você vai topar com a nova namorada de seu ex. Ou casar com homens separados que já têm filhos. Essas recomposições fazem parte da vida cotidiana. E há casos e casos. Há separações arquitraumáticas, que vão trazer amolação pelo resto da vida. Outras têm problemas no começo e depois se ajeitam. Você não é obrigada a se dar bem com a nova de seu ex, muito menos trocar beijinhos, mas é obrigada a ser civilizada.
PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | Próxima >> |