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 Extremos de sampa precisa
ir lá por obrigação profissional já
desistiu do centro da cidade. Quando eu
era criança - e até hoje os mais antigos
falam assim - ir ao downtown de São
Paulo era ir "à cidade". Pois bem, eu
ainda vou "à cidade" - mais por nostalgia
do que por necessidade. Vou "à cidade"
não mais para ir ao cinema - pois não
há mais nenhuma sala na velha Cinelândia.
Não mais para ir ao médico
- todos os doutores de maior prestígio
tinham consultório lá, hoje restaram os
vendedores de atestados médicos. Nem
para comprar roupas finas - downtown
era o point da moda masculina, hoje é
saldão 1,99. Ainda vou ao centro, por
teimosia, talvez para tentar vislumbrar
naquelas calçadas malcuidadas e prédios
encardidos, sob cujas marquises hoje
vive uma enorme população de bêbados
e desvalidos, um resquício do fascínio
que despertava aquele pedaço onde São
EXTREMOS
DE SAMPA
Paulo começou e que concentrava todas
as melhores coisas da vida - teatros,
cinemas, restaurantes, boates, saunas e
o indispensável etc.
Hoje, quase tudo cheira a abandono.
Mas o pior aguarda o passante - e imagino
a reação de um turista - que se
aventura pelas rebarbas da Avenida São
João, a apenas alguns passos da esquina
de Ronda e Sampa. Imagine um daqueles
filmes de zumbi do George Romero
- com hordas de mortos-vivos vagando
sem rumo, imundos e semiputrefatos.
A diferença é que os filmes de zumbis
se passam à noite. O atual horror paulistano
é à luz do dia. Naquele trecho
da cidade, numa tarde qualquer de
domingo, contam-se centenas de noias,
velhos, homens, mulheres e até crianças,
destruídos pelo crack - ora deitados,
ora cambaleando, num cenário de final
dos tempos.
Corte para o Shopping Cidade Jardim, a
uns cinco quilômetros dali. É um projeto
que dá arrepios nos urbanistas da cidade
- ali, não se chega a pé e é provavelmente
o único prédio de Sampa que não tem
alternativas viárias de entrada e saída.
Não há praça de alimentação e, no seu
único quiosque gastronômico, uma batata
quente custa 29 reais. Mas lá dentro
funciona uma filial da Livraria da Vila
que representa o lado mais civilizado da
grande metrópole. Não conheço o dono,
Samuel Seibel, empresário do setor de
madeiras e amante da cultura, mas o
aponto como um benfeitor cultural da
cidade. Aquilo deve ter custado uma
nota preta, o ponto deve ser caríssimo,
vender livros não é bolinho num Brasil
ainda iletrado. Seibel fez ali a livraria
dos sonhos de todo bibliófilo ou mero
leitor. Tudo é muito chique e asseado e
seus 150 mil títulos ficam sob iluminação
direta, como se fossem joias. Dá vontade
de comprar tudo. Mas não precisa.
Você pode passar o dia lá gastando só o
estacionamento. Poltronas ultraconfortáveis
permitem ao cliente ficar ali por
horas, degustando qualquer livro - com
o detalhe charmoso do abajur de leitura.
No segundo andar, a mesma facilidade
se repete no setor de revistas. Nenhum
funcionário o abordará - mas se você o
abordar, receberá dele uma aula sobre
o autor procurado. Repito: se o cliente
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